Uma viagem com Paloma e Ubaldo
Ontem, ao ler a crônica de domingo de Paloma Amado que versava sobre a amizade de seus pais com João Ubaldo Ribeiro, fiz uma viagem ao passado, aliás maravilhosa viagem.
Voltei ao início dos anos setenta (71/72/73). Naquela época Salvador era destaque em Publicidade e Propaganda, com a UNIGRAF. A UNIGRAF reunia como sócios: João Ubaldo Ribeiro; James Amado; Alberto Hoisel e Kaká.
Lembro ainda que Fernando Hoisel era o fotógrafo e Gracinha Hoisel era ‘past up’ (função já extinta há muito...). E minha mãe Maria José Vasconcelos era ‘contacto’, que hoje mudou para atendimento.
Era uma festa, para mim, ir para a UNIGRAF. O ambiente era super descontraído, tudo o quê um falava, virava trocadilho ou piada. Claro que o maestro dessa orquestra era o Prof. Ubaldo, como era chamado pelos funcionários.
Certa feita ele iria para uma cerimônia, coquetel, sei lá e descobriu que o eclair de sua calça havia estragado. Ao comentar, minha mãe disse a ele que poderia consertá-lo bastando somente entregar a calça a ela. Mainha se arrepende até hoje... Prof. Ubaldo começou a gritar para toda a agência: Maria José mandou eu tirar as calças, gente!!!!!!!!
Outra feita, ao ter um mal estar intestinal que o fez permanecer por algum tempo sentado no vaso, escreveu uma crônica na porta do sanitário, a respeito da solidão na privada...
São muitas histórias lembradas e todas vivenciadas.
Ele era uma piada em pessoa e, junto com James e Kaká, formavam uma trupe muito mais engraçada que os Trapalhões. Só Dr. Hoisel era sério, meio tímido e só ria das loucuras e reclamava um pouco do excesso de descontração. Era chamado o diretor, numa referência a diretores de escolas da época.
Eu frequentava às tardes, após a escola e, como era metida a escritora, ele me dava a maior trela e lia meus textos. Ainda o ouço dizer: Escreva como se estivesse falando, depois você pontua e faz as correções. Crie o seu estilo.
Ao perguntar "o que é estilo", a resposta que nunca esqueci... é o seu jeito, que é só seu. Quando alguém que lhe conhece, ler, vai pensar: este texto está "falando" igual a Elza.
E eu, criança, não sabia que estava diante de tão gigantesco escriba.
Para mim a celebridade era James Amado, por ser irmão de Jorge Amado, meu ídolo, de quem eu devorava os livros, com a permissão de mainha, que não seguia as orientações da direção do Instituto Feminino da Bahia, onde eu estudava.
Lá no IFB era proibido até falar o nome de Jorge, o Amado.
Diziam lá: um boca-suja; só escreve pornografias...
A autora Elza Ramos é Publicitária, Pedagoga, Iyalorixá